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Daisy Barros permanece

30/08/2020

Atleta, treinadora, professora, dirigente: em vários ângulos, em diferentes atribuições, Daisy Barros contribuiu, muito e sempre, para alçar a GR do Brasil ao patamar que hoje ocupa

Daisy Barros permanece

A Ginástica do Brasil se despediu de Daisy Barros no último sábado (22). Despedir-se, no entanto, é modo de dizer. A atleta pioneira da Ginástica Rítmica, a treinadora, a professora, a dirigente, a educadora apaixonada pela Ginástica Para Todos...todas essas pessoas que são sempre Daisy, todas essas facetas de uma mesma personagem, estão de tal maneira entranhadas na história de equipes, de treinadoras e de atletas, que podemos afirmar, de forma peremptória, que há muito de Daisy na GR. Daisy permanece.

Para procurar transmitir aos que não a conheceram mera noção do legado deixado pela incansável Daisy, o “Memória de Ouro CBG” recua no tempo e reconta parte da história da GR no mundo e no Brasil para que se compreenda a dimensão dessa personagem ímpar e sua inserção nessa trama.

No século XIX, a GR era uma espécie de braço da ginástica grupal, e pressupunha a execução de coreografias básicas. Os primeiros esboços do que viria a se tornar a GR são obra de Jean-Jacques Rousseau, que estudou o papel que a ginástica poderia cumprir no desenvolvimento infantil.

A bailarina Isadora Duncan teve papel fundamental na gênese da GR. Ela adaptou a ginástica à dança e levou essa atividade à União Soviética. Lá dedicou-se a ensinar esse conteúdo como prática independente e competitiva. Em 1942, foi realizado o primeiro evento competitivo de que se tem notícia: o Campeonato Nacional Soviético.

Em via paralela àquele trabalho, Heinrich Medau estudava, na Alemanha, os exercícios rítmicos, aos quais somou o manejo dos aparelhos. O incremento do grau de complexidade dos movimentos foi responsável pelo crescimento do interesse do público.

A GR é um amálgama moldado a partir de diversas fontes. Foram introduzidos elementos do balé clássico, como pliés, aos quais foram acrescentados os trabalhos originados na escola germânica que enfatizam o desenvolvimento muscular com ênfase nos aparelhos e o método sueco que utiliza exercícios livres para o desenvolvimento do ritmo.

A Federação Internacional de Ginástica (FIG) passou a abrigar a GR em seu guarda-chuva a partir de 1962. A modalidade já foi chamada de Ginástica Rítmica Moderna, Ginástica Feminina Moderna, Ginástica Moderna e Ginástica Rítmica Desportiva.

 A GR foi introduzida no Brasil em 1953 pela professora austríaca Margareth Frölich, que veio ministrar aulas de Ginástica Feminina Moderna num curso de aperfeiçoamento pedagógico promovido pelo estado de São Paulo. Frölich foi auxiliada por Erica Sauer, que era professora da Escola Nacional de Educação Física e Desportos da Universidade do Brasil, hoje a Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Sauer se empolgou com a modalidade, participou de vários cursos de especialização na Alemanha e fomentou no Brasil a Ginástica Moderna, inserindo-a na programação dos cursos de graduação em Educação Física.

Na mesma época, a professora húngara Ilona Peuker mudou-se para o Rio. Ela ministrou cursos e fundou o Grupo Unido de Ginastas (GUG), contribuindo de maneira decisiva para a difusão do esporte. Com o tempo, a Ginástica Moderna foi inserida nos currículos escolares. A formação de professoras especializadas e de um contingente de ex-praticantes foi determinante para disseminar a modalidade no território nacional.

Ilona consegue transmitir sua paixão para as ginastas. Já em 1967, na terceira edição do Mundial de Ginástica Moderna, realizada em Copenhagen, o Brasil se faz representar. E quem é a atleta que coloca o País nessa bela história? Justamente ela, Daisy Barros, aos 32 anos. “Era um tempo em que a GR era praticada por mulheres adultas. Não estava democratizada ainda como iniciação esportiva, envolvendo crianças e adolescentes, como ocorre hoje”, diz Marcia Regina Aversani Lourenço, presidente da Federação Paranaense de Ginástica, professora e uma das maiores estudiosas da modalidade no Brasil.

Em 1969, a GR foi incluída nos Jogos Estudantis Brasileiros (JEBs), um marco no processo de enraizamento da modalidade num país de dimensões continentais. No ano seguinte, o GUG realizou no Rio a primeira competição internacional de maior envergadura no país, o I Festival Internacional de Ginástica Moderna, com a participação de ginastas brasileiras, argentinas, venezuelanas e suíças.

Em 71 seria realizado o primeiro Campeonato Brasileiro, no Rio, com a participação de apenas três estados: a hoje extinta Guanabara, o Rio e Minas. A Guanabara foi campeã. A primeira participação brasileira num Mundial em disputa de conjuntos ocorreu na sexta edição da competição, em Roterdã, na Holanda. O GUG representou o Brasil. Nos JEBs, um número recorde de estados se inscreveu nas disputas de GR: 19.

Nos Jogos de Montreal-76, uma equipe brasileira de GR participou da solenidade de abertura da Olimpíada. Foi parte de um esforço de divulgação da modalidade entre os membros do Comitê Olímpico Internacional com o objetivo de conquista do status olímpico.

Ao longo da década de 70, graças principalmente ao esforço das Secretarias Estaduais de Educação e das Federações Estaduais de Ginástica, a GR ganha reconhecimento como agente formativo e como modalidade competitiva para jovens. Na orientação técnica, dois nomes se destacaram nesse período: Ilona Peuker e Daisy Barros.

Na década de 80, as treinadoras Vera Lúcia Miranda e Elisabeth Laffranchi trabalharam duro para elevar o patamar dos conjuntos nacionais. Nos anos 90, Letícia Barros (filha de Daisy), Yara Zamberlam e Bárbara Laffranchi empunharam o bastão – ou, para substituirmos essa imagem emprestada do atletismo, a maça. O restante da história já é mais conhecido pelas gerações mais jovens. Um grande marco para que a modalidade crescesse aos olhos da imprensa foi a conquista da medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 99, na disputa de conjuntos. A GR ganha então espaço nos noticiários de TV, rádio e jornais.

Após obter o diploma de Licenciatura em Educação Física pela Universidade do Brasil, em 1955, Daisy graduou-se também em Orientação Educacional pela UFF e concluiu mestrado na Mississippi Southern University. Além disso, entre outros cursos, concluiu especializações em Ginástica Rítmica na Alemanha, na Medau Schule, e na Ellen Cleven Schule.

A educadora disseminou esses conhecimentos por muitos anos. “Fiz cursos com ela na Universidade Gama Filho. Viajava de ônibus de Aracaju até o Rio. Naquela época, eram três dias de estrada”, diz a presidente da CBG, Maria Luciene Cacho Resende.

A dirigente teve a oportunidade de homenagear Daisy, que foi a porta-bandeira da delegação brasileira na Ginastrada Mundial de 2015, em Helsinque.

Daisy publicou nove livros, com destaque para Os Primeiros Passos da Ginástica, ABC da Ginástica, Em Busca de Novos Talentos, Manual 1,2,3 e 4 do Centro de Excelência da CAIXA Jovem Promessa e Coletânea Didático-Pedagógica – Educação Física Escolar. “Os manuais do Centro de Excelência da CAIXA são muito importantes para a capacitação dos nossos estagiários, que trabalham na formação das nossas crianças”, destaca Luciene.

A dirigente conviveu bastante com Daisy em outros momentos, como durante a disputa dos JEBs. “Ela como treinadora da seleção do Rio; eu treinava a seleção sergipana”, recorda a Presidente.

A contribuição de Daisy, ao longo de todos esses anos, formando, divulgando, encorajando, estruturando...foi gigantesca. “Daisy Barros será sempre aclamada como um grande ícone para a Ginástica Brasileira. Não somente os dados de pesquisa mostram isso, mas as declarações de todos que conviveram com ela. Foram quase 70 anos de dedicação e entrega ao esporte. A coleção de grandes feitos dela é extensa. Além de ter sido nossa primeira ginasta a competir num Mundial de GR, ela participou da primeira apresentação internacional de um grupo brasileiro numa World Gymnaestrada (em 1957). Ao longo de sua trajetória, ministrou cursos pelo Brasil, foi árbitra e treinadora de GR, entre outras ações que se prolongaram até seus últimos dias de vida – nos ginásios cariocas, escrevendo livro...Fica aqui a nossa imensa gratidão por tudo o que fez pela Ginástica do Brasil”, diz a professora Eliana de Toledo, pesquisadora do Lapegi (Laboratório de Pesquisas e Experiências em Ginástica), vinculado à Unicamp.

“Ela foi uma das primeiras ícones da Ginástica Rítmica do Brasil. Além da atuação como atleta, que é histórica, Daisy criou o GRD Clube, no Rio de Janeiro, onde foi treinadora por muitos anos. Esse clube se manteve nos pódios nacionais por anos a fio. Ela criou também o primeiro curso de pós-graduação em Ginástica Rítmica e escreveu livros de iniciação à GR, de forma criativa, com leitura fácil”, lembra Marcia Aversani, que destaca também o carisma e o magnetismo pessoal de sua personalidade. “Era uma pessoa alegre e extrovertida, levando seu bom humor por onde passava. É um nome que deve ser sempre valorizado, porque está escrito em várias facetas da história da nossa modalidade”.

Sempre que uma bola é lançada ao ar dentro de um ginásio, a cada momento em que uma ginasta brasileira maneja uma maça...há muito de Daisy nisso tudo, cabe lembrar.

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